Como a engrenagem que cria sofrimento no consultório fabrica realidades coletivas lá fora
O peso das histórias que passamos a tratar como verdades absolutas.
Rafaella S. Daudt
5/25/20263 min read
Há um experimento mental que eu acho interessante propor: imagine que uma pessoa que você ama acredita piamente em algo que você sabe que é falso. Não é um caso de uma opinião divergente, mas de um fato verificado e amplamente refutado. Então, primeiro você tenta conversar, mas a pessoa não cede. Você apresenta evidências, fontes, mas ela segue relutante. Ela criou uma narrativa indestrutível sobre aquilo. Parece frustrante, não?
Agora, inverta a perspectiva, imagine que a pessoa com essa extrema convicção é você, mas em outro domínio. Aqui, a crença inabalável é sobre si mesmo: “eu sempre estrago tudo” ou “eu sou muito ansioso”. Percebe que a mesma engrenagem que cria uma realidade coletiva lá fora, muitas vezes é a mesma que cria o sofrimento que aparece dentro do consultório?
Dentro da ciência comportamental chamamos essa engrenagem de responder relacional derivado. De forma simplificada, seria a capacidade humana de criar conexões simbólicas entre eventos, palavras, memórias e sentimentos, de forma completamente arbitrária. Pense, por exemplo, em uma mensagem aparecendo na tela do seu celular, com um texto que diz “precisamos conversar”. Analisando de forma pragmática, a mensagem nada mais é do que uma luz emitida pelo visor do aparelho. Entretanto, leva segundos para seu coração acelerar e você antecipar o fim de um relacionamento ou uma demissão. Ainda que em nenhum momento da sua vida você tenha sido atacado, de alguma forma, por aquelas duas palavras, sua mente derivou uma relação direta entre elas e a ideia de um perigo iminente, preparando todo seu organismo para o pior. Da mesma forma, um cheiro específico no transporte público pode vir a evocar a mesmíssima sensação de desamparo após uma rejeição vivida muito tempo atrás. Assim, fica fácil de entender que nós não reagimos somente ao mundo real, mas sim a todo significado costurado ao seu redor.
Essa habilidade, que sempre permitiu a nossa espécie criar histórias, poesia ou tecnologia, é a mesma habilidade que nos joga em uma teia de sofrimento. Quando vemos um sujeito se recusando a ver evidências de um fato verificado, provavelmente sua rede de relações simbólicas (sua identidade política, seu grupo social) tornou aquela crença, de alguma forma, útil ou coerente na sua cabeça. E isso não difere de nós mesmos, quando sozinhos em casa, nos vemos convencidos de que “sempre estragamos tudo” ou que “somos ansiosos demais para lidar com isso”. Quando nossa mente deriva regras indestrutíveis baseadas em conexões arbitrárias, passamos a reagir como se essas fossem verdade físicas, tão reais quanto a gravidade.
Se o mecanismo que ancora a desinformação social pode ser o mesmo que sustenta o autodesprezo, a saída pode compartilhar da mesma lógica. Nesse sentido, não há como travar uma guerra argumentativa, muito menos apagar o que foi aprendido. Afinal, não há, dentro da neurobiologia nem da linguagem humana, um botão de deletar o que foi previamente derivado. Então passa a ser mais importante perceber que estamos presos a uma teia, do que tentar simplesmente tentar destruí-la. Isso quer dizer que adotar uma postura de distanciamento, uma espécie de “eu observador”, que para de responder com contra-argumentação e passa a perceber que regras mentais (como “eu estrago tudo”) são produtos da linguagem e não algo realmente factual e imutável, pode ser mais efetivo. Ainda que parece algo simples, é essa autopercepção que pode nos tornar capazes de fazer a regra perder sua força. Uma regra percebida não vai deixar de existir, mas pode parar de definir nossas ações, mesmo quando o terreno simbólico tenta ditar o contrário.
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